Loucas e desequilibradas - A violência política de gênero nas redes sociais


Uma ativista, uma jornalista, uma chef e uma deputada. Todas envolvidas na política e no debate de políticas públicas, e todas alvos de ameaças, xingamentos, assédio e desinformação. A violência política de gênero virou onipresente nas redes sociais. Mesmo que as redes tenham ajudado a democratizar o acesso à política e ao lobby/advocacy digital (hoje qualquer um pode participar do debate em torno de uma política pública), elas trazem efeitos colaterais indesejados, os tais efeitos adversos. Entre eles o fato de que as redes ajudaram a normalizar a violência política de gênero. Comportamentos que antes ficavam restritos aos ambientes físicos e isolados passaram a ser alardeados em alto e bom tom. Segundo, as redes deixaram as mulheres mais suscetíveis à violência política de gênero. Basta tuitar ou enviar uma mensagem no Instagram. Para exemplificar, seguem quatro casos de mulheres que, ao defenderem uma causa ou ponto de vista, foram duramente atacadas nas redes e fora delas.


Olivia Julianna é uma ativista pró direitos da mulher de 19 anos que decidiu bater de frente com o Deputado Republicano Matt Gaetz nos EUA. Num discurso anti aborto que circulou no Twitter, o deputado ataca mulheres obesas -- ele pergunta, por exemplo, porque só mulheres com menor probabilidade de engravidarem defendiam o direito ao aborto --, além de fazer comentários do tipo: "Ninguém vai querer te engravidar se você parece que nem um dedão", referindo-se às mulheres baixas e obesas. Em resposta à agressão, a ativista da ONG Gen Z for Change foi ao Twitter. Além de engajar o deputado num bate boca online, iniciou uma campanha em "homenagem" ao deputado para arrecadar fundos em prol de ONGs dedicadas à defesa do direito ao aborto. No início da campanha, seu objetivo era chegar a alguns milhares de dólares, mas o apoio da sociedade foi surpreendente. No final de julho havia arrecadado mais de US$2 milhões para serem distribuídos à 50 ONGs nos EUA que lutam pelo direito ao aborto.


A Patrícia Campos Mello é repórter da Folha de SP e autora do livro "A Máquina do Ódio" em que ela descreve as práticas das campanhas digitais a favor de Jair Bolsonaro, então candidato a presidente da república nas eleições de 2018. No livro ela descreve o assédio sexual online e as ameaças que sofreu por expor a tática do disparo em massa via WhatsApp em uma série de artigos na Folha de São Paulo. Por fim, ela teve que ouvir do próprio Presidente o seguinte comentário durante uma entrevista ao vivo à frente do Palácio do Alvorada. Referindo-se à jornalista, ele disse: "Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim." O Presidente fazia menção à acusação de um funcionário de uma das empresas de disparo em massa de quem a jornalista supostamente queria obter informação (o furo) em troca de sexo. A Patrícia moveu uma ação contra o Presidente e ganhou em primeira e segunda instâncias.


A Deputada Estadual Tabata Amaral foi a sexta candidata mais votada em São Paulo em 2018 e está novamente concorrendo ao páreo. Por se opor abertamente ao Presidente Bolsonaro, sua agenda e visão de mundo, ela é alvo constante de ataques nas redes sociais. Jovem e mulher, ela incomoda mais ainda. Num vídeo recente no Twitter ela lista alguns dos xingamentos que recebe diariamente: "Você é muito burra, vai lavar a louça. Com uma filha deste tipo, entendo porque seu pai tenha se matado. Vagabunda. Daria uma surra nesta p.. ordinária." Ela resume: "O medo sempre foi o principal instrumento para frear as mulheres. O objetivo é nos silenciar." A estratégia funciona. A ex Deputada Federal Manoela D'Ávila deixa claro o peso que teve que carregar por ser mulher. Num artigo no G1 ela fala sobre sua decisão de não concorrer a cargos públicos em 2022: "Estive na linha de frente nas eleições majoritárias de 2018 e 2020. Sabemos como esses processos foram duros e violentos para mim e para minha família."


A Chef Argentina Paola Carosella, além de estar à frente de seu restaurante Arturito e da rede de restaurantes La Guapa, é ativista e se engaja em temas ligados à alimentação saudável e à agricultura local. Um deles é o PL do Veneno. Ela gravou vídeos que dissemina nas redes, foi a audiências públicas no Congresso e tuitou. Mas quando chamou os seguidores do presidente de "burros ou escrotos" durante uma entrevista num podcast em maio deste ano, ela sofreu retaliação de toda sorte, desde um boicote a seu restaurante (que não deu certo), disseminação de fake news (de acordo com o site de checagem do Estado de São Paulo, trechos de comentários de 2017 do recém falecido Jô Soares foram tirados de contexto para parecer que estava criticando a chef), até ataques xenofóbicos (artigo da Lupa menciona mais de 38 mil tuítes com a hashtag #voltaparaaargentinacozinheira.


Nesta primeira semana de campanha, 97 mulheres na disputa receberam quase 4.5 mil ataques e/ou insultos pelo Twitter. Esta e outras informações constam do projeto MonitorA, uma parceria entre AZMinas, InternetLab e Núcleo Jornalismo, que registrou 518 menções de termos como louca, doida, maluca, desequilibrada, histérica e descontrolada. O relatório conclui: "...a histórica atribuição de estereótipos de loucura e histeria a mulheres que levantam a voz segue sendo uma das principais ferramentas de tentativas de controle sexista." E quando um presidente proclama que é "imbrochável", a mensagem é a mesma: homem adequado à política é imbrochável, mulher na política é louca e desequilibrada.

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